Contos de Libertação - Conto 3: O voo das algemas

4 comentário(s)
Oi queridos! Trago pra vcs a continuação dos Contos de Libertação, com o 3º capítulo.
Também gostaria de dizer que as fotos dos leitores agora estão sendo postadas no meu Facebook. Podem procurar as suas aqui.

E está tendo uma promoção super legal do meu livro "Corações em Fase Terminal" no blog "Sobre o Nada", clique aqui para participar.

A seguir, o conto...um beijo!


Conto 3 – O voo das... Algemas.


(Anteriormente) — Boa tarde a todos. Como sabem, nossas reuniões ocorrem semanalmente, e recebemos deficientes visuais de todos os bairros da cidade. Cada um é livre para falar o que desejar, e se expressar como bem entender. Sou Maria Isabel e irei coordenar o grupo.

***

— Sou o Jonatas, e assim como o Frederico e a Dalila, também sou livre em meus sonhos... Aproveitando o relato de nossa caçula, quando ela mencionou as gaivotas, lembrei-me de que, em meus sonhos, posso voar...
— Conte-nos mais – pediu Maria Isabel.
Com um sorriso no rosto, Jonatas continuou:
— Diferentemente dos outros do grupo, eu não nasci deficiente visual. Um acidente, hoje perdido nas linhas do passado, assim me fez. Após anos de fúria pela ausência da visão, hoje sinto que tudo isso teve um propósito maior em minha vida. Antes, eu era cego pelo orgulho, pela ganância e pelo preconceito. Hoje, sou capaz de enxergar a vida como ela é. Não vou dizer que não tenho dias difíceis. Sim, eles ocorrem com certa frequência. Contudo, a alegria em certos momentos transborda em meu ser...
— Seja mais claro – pediu Maria Isabel.
— Hoje, os momentos simples me trazem alegria... Quando chega uma nova estação e eu a aprecio pelos seus diferentes aromas. Quando acaricio a pelagem do meu cão, quando ouço uma música... Tudo agora é diferente. Após o acidente, foi como se eu passasse a pertencer a um novo mundo. Nos momentos que sucederam o ocorrido, eu tive ódio de tudo. Parecia que o mundo havia apagado as luzes para mim. E, assim, apagado também a luz de minha própria existência. Porém, quando comecei a reencontrar minha própria luz, pouco a pouco, as janelas do mundo começaram a se reabrir para mim, colorindo minha vida. Hoje, eu aprendo com tudo ao meu redor. Inclusive, com aquilo que temos de mais desafiador... Nossos sonhos.
— Você disse que sonha que está voando – falou a coordenadora do grupo.
— Exatamente. Entretanto, na época em que as luzes estavam apagadas em minha vida, ou seja, quando eu ainda tinha ira de minha nova condição, os sonhos não eram de libertação. Era exatamente o contrário.
Apreensivos, todos do grupo ouviam o relato de Jonatas. Ele respirou profundamente, tomando coragem. Parecia estar fuçando em memórias gastas, de anos atrás. Memórias que tanto haviam lhe machucado no passado e que, por essa razão, ele havia trancado em uma gaveta de sua mente, deixando que empoeirassem. Entretanto, elas existiam, eram parte de seu ser de alguma forma. Parte de seu crescimento... Parte do “abrir de suas janelas para a vida”.
Ele enxugou uma gota de suor da testa, e continuou:
— Antes de sonhar que eu posso voar, eu sonhava com... Uma prisão. Mas não era uma prisão qualquer. Era como uma espécie de prisão projetada por mim mesmo. Eu era o único prisioneiro. Nos sonhos, eu via-me em uma cela, pequena e estreita. Eu não conseguia ficar em pé, devido à baixa altura de suas paredes. Era angustiante. Do teto, desprendiam-se grossas e pesadas algemas de aço, que me apertavam os punhos, fazendo-me sangrar. Era sempre o mesmo sonho e, quando eu acordava, sentia-me prisioneiro de mim durante cada segundo do meu existir. Eu quase era capaz de sentir dor nos braços, devido ao peso das algemas de meus mais profundos pesadelos. Eles eram vivos. Eram reais. Mas, com o tempo, com minha própria aceitação e com a ajuda dos verdadeiros afetos, uma janela pequena e tímida surgiu nos meus sonhos, em uma das paredes de minha prisão. Eu consegui, lentamente, ver o céu escuro que se projetava lá fora. O sonho, então, foi se repetindo, e o céu clareando a cada dia. Era como se estivesse amanhecendo em meu interior. Eu pude, após muito tempo, ver novamente a luz do sol. Raios frágeis adentraram minha cela, aquecendo meu coração. Um dia, o mais belo sonho aconteceu: as duas algemas que me prendiam os punhos soltaram-se e transformaram-se em belas asas de águia. Foi mágico e lindo de se ver. O aço dissolveu-se, virando nada mais que... Belas e longas penas. No instante seguinte, a águia era eu. Pude sair pela janela da prisão, que já era bem maior que no início, e voar pelo céu azul-claro. Desde então, tenho sempre os mesmos sonhos. Eu sou a águia: com um par de olhos atento a qualquer detalhe da vida, e com um par de asas capaz de me libertar de minha própria prisão. As luzes nunca mais se apagaram e meus sonhos nunca mais deixaram de ter cor, assim como minha vida.
— Você nos trouxe muitas lições hoje – disse Maria Isabel, enxugando as lágrimas.
— Fico feliz em dividir – respondeu o rapaz – na verdade, a maior lição foi para mim mesmo. Eu, antes, acreditava que minha vida não teria sentido, pois tudo o que era importante não estaria mais ao alcance dos meus olhos. Mas eu estava errado. O que é essencial está cada vez mais claro para mim. Hoje eu acordei e encontrei algo junto de meu travesseiro. Algo que eu trouxera de um sonho e que me provou que estou no caminho certo.
Ele estendeu o objeto à Maria Isabel e ela ficou maravilhada ao ver que se tratava de uma linda pena... Uma pena de águia.

Continua...


Se você não leu os contos 1 e 2, vá para a página: 

Os Contos de Libertação são publicados no Jornal O Popular, de Mogi Mirim, e no blog Reino Xadrez

4 comentários:

Tutti disse...

Nossa! Você escreve muito bem! Quem dera escrever assim...

Mar disse...

Floor esta rolando o sorteio de 3 MARCADORES AUTOGRAFADOS DE ANJO NEGRO
e sorteio do livro A LINGUAGEM DAS FLORES
Participe!
Imaginayre.blogspot.com

Paul Law disse...

Olá, Fabiane!

Os contos possuem uma análise singular do íntimo das pessoas; dos sonhos nos seus mais variados sentidos e isso me agrada muito.

São mensagens positivas e lições importantes que podemos tirar deles. Da prisão em si mesmo ao voo livre da águia que somos agora. Tudo é real.

Um abraço e sucesso!

Fabiane Ribeiro disse...

Olá pessoal! Obrigada pelo incentivo! Esses contos são muito especiais para mim, pois adoro falar e escrever sobre sonhos!
Mar, já tenho esse livro, é perfeito! Logo postarei resenha aqui no blog... mas estou seguindo seu blog :)
Nossa, Paul, vc me emocionou com suas palavras!!

um abraço para todos!

Postar um comentário